Liliane Soffer
(1952-2018)

Liliane Soffer nasceu em 1952, em Alexandria, no Egito, e faleceu em 2018, em São Paulo. Em 1957, aos cinco anos, muda-se com a família para o Brasil, fugindo da perseguição aos judeus promovida pelo governo Nasser após a crise de Suez: a partir de novembro de 1956, milhares de judeus foram expulsos do país, tiveram os bens confiscados e perderam o direito à nacionalidade egípcia.
Em 1971, ela se naturaliza brasileira e mais ou menos nessa época parte para Londres, onde mora por uma temporada. Na capital inglesa, convive com a turma da contracultura brasileira que, desde 1970, vinha se exilando na cidade. Aproxima-se, em especial, daqueles ligados ao cinema, como Neville D’Almeida e Milon Lanna, de quem virá a ser parceira, e com quem rodará a Europa nos anos seguintes.
Soffer chega à Inglaterra com uma câmera de vídeo que seu pai lhe havia dado de presente no Brasil e é possível que tenha adquirido uma 16 mm por lá. Segundo Neville D’Almeida, ela estava sempre filmando – esses filmes ou vídeos, no entanto, estão perdidos.
Em 1976, de volta ao Brasil com Lanna, com quem se casará oficialmente dois anos depois (os dois se divorciam pouco depois disso), Soffer realiza o único vídeo que, ao que se sabe, sobreviveu até os dias de hoje: Liliane a sós – solitude. Em plano fechado, cabelo black power e uma cadência de voz arrastada, em uma rotação baixa – como não era incomum na turma da contracultura –, ela se dirige à câmera, ora em inglês, ora em português, encadeando os temas mais diversos, muitos deles com um sabor de absurdo. Começa falando de uma ilha onde Colombo poderia sentar a bunda e curtir um tesãozinho; passa pela imagem de alguém, talvez Colombo, que tem na mão dois passarinhos voando e pela dificuldade de se colocar um ovo em pé. Aos poucos, o humor debochado cede a algo mais intimista. Depois de aludir a filosofias orientais de autoconhecimento: “Lila is the game of the gods”; ela se refere ao próprio vídeo: “This is my dream, this is my film, my video, and you are inside of it. If you want or if you don’t want, it doesn’t matter. This is not a game, can you understand?” Com menos de quatro minutos, o vídeo termina abruptamente no final de uma frase: “This is a time of tranquility to others”. Não é evidente se ele deveria terminar assim, ou se estamos vendo apenas uma parte da obra.
Liliane a sós – solitude foi exibido na mostra VÍDEO MAC, realizada no MAC USP (Museu de arte contemporânea da USP), em 1977. O Setor de vídeo do MAC, criado por Walter Zanini, diretor do museu, e coordenado por Cacilda Teixeira da Costa, convidou artistas para criarem vídeos de até cinco minutos. As obras deveriam ser produzidas dentro do museu, que disponibilizou ajuda técnica e equipamentos, como uma câmera Portapak recém adquirida. Possivelmente, o de Soffer fugiu à regra, e foi feito com uma câmera própria, em outro lugar – no início do vídeo, ela informa a data: setembro de 1976. Segundo Heloísa Espada, curadora e professora do MAC que vem se debruçando sobre o acervo de vídeo do museu, a artista e Lanna teriam ajudado na organização da mostra.
Por mais de trinta anos não se teve notícias de Liliane a sós. Em 2013, a artista Regina Silveira e a pesquisadora Christine Freire localizaram, no arquivo do MIS (Museu da Imagem e Som) de São Paulo, fitas em Portapak com vídeos que teriam sido exibidos ou considerados para o 1º Encontro Internacional de Video Arte São Paulo”, realizado no MIS, em parceria com o MAC. As fitas foram copiadas na Espanha e então retornaram ao MAC; entre os vídeos, estavam aqueles exibidos no VÍDEO MAC em 1977, incluindo o de Liliane Soffer. Em 2018, o curador e pesquisador Roberto Moreira S. Cruz dedicou seu pós-doutorado no museu à investigação da história do Setor de Vídeo do MAC. A pesquisa rendeu uma exposição, e Liliane a Sós foi então exibido em 2020, pela primeira vez desde 1977, ao lado de outros vídeos que integraram a mostra original.



Há poucos rastros do trabalho de Liliane Soffer e são imensas as bordas de incerteza rodeando sua vida. Pelas poucas peças que conseguimos juntar até o momento, pode-se inferir que ela teve um envolvimento intenso com o vídeo e o cinema nos anos 1970. Sua irmã, Camille (Mimi) Soffer conta que o pai presenteou Liliane com uma câmera de vídeo trazida dos Estados Unidos no final dos anos 1960. Se essa data for correta, ela terá sido uma das primeiras artistas, se não a primeira, a ter uma câmera de vídeo no Brasil. Como se sabe, a produção no país só deslanchou em 1974-1975. Antes disso tem-se pouca notícia de câmeras nas mãos de artistas, salvo uma exceção ou outra como Ângelo de Aquino, Rubens Gerchman e José Robert Aguilar, que adquiriram as suas por volta de 1972 e 1973.
Há um pouco mais de informações sobre o período no Brasil, logo depois do retorno da Europa. Sabe-se que entre 1976 e 1978 ela integra a cena do vídeo paulistana. Em 1977, participa, no papel de atirador de facas, do espetáculo multimídia O circo antropofágico ambulante cósmico latino americano, de José Roberto Aguilar, apresentado na 14ª Bienal de São Paulo. Nessa mesma época, faz a câmera de vídeos de Gabriel Borba, Mario Espinosa e Roberto Sandoval. Em 1978, completou mais um vídeo: Quebra cabeça – infelizmente, até o momento, não localizado. Apresentado no Encontro Internacional de Video Arte, realizado no MIS, naquele mesmo ano, o vídeo tinha a seguinte sinopse: “O homem como tema central é recomposto nos seus elementos originais seja na perspectiva animal, seja na manifestação de sua inteligência.”
Em 1981, Liliane parte para Nova York, onde estuda na The School of Television Arts, uma escola técnica dedicada às artes do vídeo (posteriormente rebatizada como Center for the Media Arts) – entre seus professores estava f o artista conceitual Dennis Oppenheim. Conta-se que ela dividiu um quarto com Holly Hunter, mas não conseguimos contato com a atriz para confirmar a informação! De volta ao Brasil, trabalha por um tempo na TV Globo, como coordenadora de produção do Globo Repórter. Nos anos 1990, teve uma produtora chamada Video Tape Ltda.
Ainda que as sombras de incerteza em torno de Soffer sejam extensas, é possível saber que os sonhos de vídeo e de filmes foram muitos e foram imensos. Em cartas enviadas à família, em 1972, ela menciona que pretende trocar a câmera que tinha por uma 16 mm. Usaria a nova em uma viagem que pretendia fazer à África, de onde voltaria com documentários e um filme cuja descrição lembra o que veio a ser Liliane a sós: “esse filme sou eu, são vocês, é tudo”. Tampouco se sabe se esses filmes chegaram a ser feitos ou concluídos. A ambição era alta. Em outra carta, ela escreve à irmã: “Sou um filme, sou um cinema, faço parte de um grande contexto e de mim depende o fim desse filme e talvez o começo de um novo”.
Patrícia Mourão de Andrade
Filmografia
Liliane a sós – solitude, 1976
Quebra-cabeça, 1978
(assinado como Liliane Soffer – Grupo L.U.E.B.)
