O BFVPP – sigla, em inglês, para Projeto de preservação do filme e vídeo brasileiro – surgiu em 2015, com o propósito de mapear a produção de filmes e vídeos de artistas brasileiras entre 1960 e 1985, colaborando para o restauro, a digitalização e a preservação dessas obras. O projeto também se empenha em recuperar a memória dessa produção, por meio de uma série de entrevistas com artistas e colaboradores, e em fomentar a reflexão sobre ela, comissionando ensaios inéditos sobre artistas e seu trabalho em filme ou vídeo. O BFVPP também busca servir como uma plataforma para reunir pesquisadores e curadores que trabalhem com a produção audiovisual de artistas brasileiros.
O BFVPP é um projeto sem fins lucrativos e não detém os direitos de exibição de nenhuma dos filmes ou vídeos que ajuda a restaurar ou digitalizar. As obras são depositadas em arquivos, onde ficam disponíveis para pesquisadores. Trabalhamos em parceria com o Eletronic Arts Intermix, em Nova York, e com a Associação Cultural Videobrasil, em São Paulo.
Financiado exclusivamente pelo Ostrovsky Family Fund (OFF), o BFVPP foi idealizado pela diretora da OFF, a curadora e cineasta Vivian Ostrovsky. Desde a década de 1970, a OFF apoia a produção, distribuição, promoção e exibição de filmes experimentais, financiando artistas, arquivos, festivais e salas de cinema dedicadas a filmes não comerciais. A ideia para o projeto surgiu quando Vivian Ostrovsky, que viveu no Brasil por quase vinte anos, na infância e adolescência, tentou programar filmes de artistas brasileiros. Ela se surpreendeu com a dificuldade de acesso às obras e com a escassez de informações sobre a produção. Pouco tempo antes, havia digitalizado os próprios filmes, e entendeu que estender essa oportunidade aos artistas que a inspiraram ao longo da vida era um dever.
FOCO
No final dos anos 1960, em meio ao recrudescimento da ditadura militar brasileira, alguns artistas começaram a se interessar por mídias audiovisuais. Desde o golpe, em 1964 – e sobretudo depois do Ato Institucional nº 5, em 1968, que aprofundou drasticamente a repressão política e a censura –, a arte brasileira havia feito uma guinada rumo ao experimentalismo. Artistas levaram suas práticas para fora dos museus; propuseram experiências efêmeras, em espaços não sancionados pela arte; exploraram materiais e suportes não tradicionais, muitas vezes assumindo uma posição marginal em relação à sociedade e ao status quo. Para a vanguarda, a arte virara, nas palavras célebres de Mário Pedrosa, “um exercício experimental da liberdade”. É nesse caldo cultural e político, e em um momento em que o cinema brasileiro também estava em sua fase mais radical, que alguns artistas fizeram seus primeiros experimentos com a imagem em movimento.
No início dos anos 1970, quando a censura se intensificou e praticamente todos os cineastas da vertente mais radical do cinema brasileiro se autoexilaram, vários artistas encontraram encontrar no super-8 – uma bitola menor, caseira – um campo livre para a experimentação.
Se desde os anos 1960 artistas nos Estados Unidos, Europa e Japão experimentavam com as recém-lançadas câmeras de vídeo, no Brasil foi apenas em 1974 e 1975 que artistas tiveram suas primeiras experiências com a tecnologia. Embora a história da arte tenda a celebrar o vídeo como uma mídia democrática e barata, no país, câmbio e altas tarifas de importação faziam com que ela estivesse longe de ser acessível. No entanto, em meados dos anos 1970, uma conjunção de fatores – envolvendo um convite para uma exposição no exterior; um grupo de artistas interessados em arte conceitual e críticos ao papel da televisão na sustentação do regime militar; e a chegada ao Rio de Janeiro de uma câmera de vídeo Portapack, trazida por um cônsul que abandonara a diplomacia em oposição ao regime para se dedicar ao cinema – tornou possível que surgissem os primeiros experimentos com o vídeo no país.
Com pouco apoio institucional ou crítico e sem conseguir criar um circuito próprio de legitimação e sustentação, a produção em filme e vídeo dos anos 1960 e 1970 passou muitos anos longe dos holofotes. Obras se perderam, outras foram danificadas. Nas duas últimas décadas, nota-se um crescente interesse, no Brasil e no exterior, por essa produção. O BFVPP busca somar-se aos esforços recentes de pesquisadores, curadores e instituições envolvidos na recuperação dessa história.


