Sonia Andrade

Brasileira, 1935 – 2022, Rio de Janeiro.

Bio

© Zzn Peres

Nascida em 1935, no Rio de Janeiro, Sonia Andrade faz parte da primeira geração de videoartistas brasileiros, ao lado de nomes como Anna Bella Geiger, Letícia Parente, Ivens Machado, Paulo Herkenhoff e Fernando Cocchiarale. Os amigos costumavam se reunir em um grupo de estudos no início dos anos 1970 para discutir arte e trocar sobre os próprios trabalhos. À exceção de Anna Bella, todos ainda buscavam uma linguagem própria, atentos aos desenvolvimentos internacionais da arte conceitual. Eles fizeram parte da primeira geração cujo trabalho não nasceu em diálogo – de continuidade ou ruptura – com a tradição concreta que havia redefinido o campo da vanguarda brasileira nos anos 1950. Tampouco estavam particularmente interessados no debate sobre o caráter e a identidade da arte brasileira, uma questão que ocupara o meio intelectual e artístico desde o modernismo, e que só se acirrara durante a ditadura militar. 

Em 1974, motivados por um convite do Instituto de Arte Contemporânea da Filadélfia (ICA) para uma exposição que prometia ser um marco na história da videoarte, vários dos artistas do grupo produziram, com uma câmera emprestada, seus primeiros vídeos. Entre 1974 e 1977, Sonia Andrade realiza uma série de oito trabalhos, todos sem título, em preto e branco. A artista aparece em praticamente todos, muitas vezes em cenas que envolvem algum tipo de autoagressão – algo que a aproxima de outras videoartistas do período, cujos trabalhos aludem à violência e opressão de gênero. No caso de Sonia Andrade, no entanto, não se pode dissociar as imagens de mutilação da experiência cotidiana de se viver em um regime ditatorial, no qual não eram incomuns os casos de tortura.

Entre as pioneiras da videoarte no Brasil, nenhuma trabalhou de modo tão contundente uma crítica à televisão como Sonia Andrade. Em seus trabalhos, a televisão aparece como um dispositivo de encarceramento e alienação que age no nível psíquico, subjetivo e social. Em um dos vídeos, ela se posiciona em frente a uma parede de aparelhos de televisão e, dirigindo-se à câmera e ao futuro espectador, repete, em tom monocórdico, como se quisesse hipnotizá-lo: “desligue a televisão”. É uma espécie de contrafeitiço, uma hipnose contra a hipnose coletiva. Em outro, a vemos sentada diante de uma panela com feijão – o prato mais típico da alimentação brasileira –, tendo atrás de si um aparelho de TV ligado em um episódio de Tarzan. Eventualmente, começa a lançar os feijões contra a câmera, em uma revolta contra o meio.

Pouco depois desses primeiros vídeos, a artista se muda para a Suíça, depois para a França. Por um tempo, a mídia ocupa menos espaço em seu trabalho. Nos anos 2000, novamente no Brasil, ela retoma seu trabalho com a imagem em movimento e cria algumas instalações ambiciosas. No seu uso do vídeo, a artista reflete sobre as dimensões formais e técnicas da tecnologia, tanto quanto seu papel em dinâmicas sociais e suas implicações na esfera pública e privada. 

O vídeo não foi o único meio expressivo utilizado por Sonia, tampouco o privilegiado. A artista lança mão, de acordo com as questões que quer tratar, de meios e materiais tão variados, que é difícil estabelecer para sua obra uma identidade estilística e formal. Desde o início de sua carreira, como uma bricoleuse, ela se apropriou de objetos e imagens de diferentes naturezas, além de ter explorado o desenho, a caligrafia, a fotografia e, claro, o vídeo. Sonia também é uma das artistas mais misteriosas de sua geração. Sua obra é, em larga medida, inacessível e isso se deve, em parte, a uma decisão radical da artista de pensar cada trabalho como uma parte de um conjunto, dotado de uma lógica interna. Esses conjuntos podem levar anos para serem produzidos, e as obras não podem nem são mostradas separadamente. 

Filmografia

  • Sem título (muro) (1974)
  • Sem título (gaiolas) (1977)
  • Sem Título (dentes) (1977)
  • Sem título (pregos) (1977)
  • Sem título (fio) (1977)
  • Sem título (feijão) (1975)
  • A morte do horror (1981)
  • Intervalo (1983)
  • Sem título (pelos) (1977)
  • Sem título (desligue a TV) (1977)

BFVPP Ensaios

Sonia Andrade: na intimidade do visível

Marisa Flórido, 2022

Como se dá nossa relação com as imagens? Como se dá nossa relação com o mundo mediado por imagens? Como se dá nossa relação com as imagens mediadas por tecnologias (como o vídeo), mídia (como a televisão) e outros dispositivos de exibição (como o sistema de arte)?

Sonia Andrade

Marcella Lista 2022

A obra de Sônia Andrade ainda hoje é amplamente desconhecida. Os limites da infraestrutura institucional no Brasil e as exigências correspondentes que a artista impôs com relação à formulação e ao tratamento de seu trabalho fora do mercado de arte desempenham um papel revelador nesse estado de coisas.

Conversa

Sonia Andrade Río de Janeiro, 2018

Recursos






Livros 
COCCHIARALE, Fernando (org.). Filmes de artista: Brasil, 1965-1980. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2007.
FIGUEIREDO, Luciano (org.). Sonia Andrade: vídeos, 2005-1974. Rio de Janeiro: Tisara Arte, 2005.
LENZ, André (org.). Sonia Andrade: retrospectiva 1974-1993. Rio de Janeiro: Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, 2011.
LENZ, André (org.). Sonia Andrade: vídeos. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2010.
MACHADO, Arlindo. Made in Brasil: três décadas do vídeo brasileiro. São Paulo: Itaú Cultural, 2007.
PARENTE, André. Cinemáticos: tendências do cinema de artista no Brasil. Rio de Janeiro: +2 Editora, 2013.
PECCININI DE ALVARADO, Daisy (org.). Arte: novos meios/multimeios: Brasil 70/80. São Paulo: FAAP, 1985.
SHTROMBERG, Elena. Art Systems: Brazil and the 1970s. Austin: University of Texas Press, 2016.

Ensaios e entrevistas 
In: PECCININI, Daisy (org.). Arte novos meios / multimeios: Brasil 70/80. São Paulo: Armando Álvares Penteado, 1985. P87-92.
ANDRADE, Sonia. Entrevista concedida a Hans Ulrich Obrist. In: OBRIST, Hans Ulrich. Entrevistas brasileiras. v. 1. Rio de Janeiro: Cobogó, 2018. p. 191-208.
FITCH, Nick; DINANT, Anne-Sophie. “Situações-Limites”: The Emergence of Video Art in Brazil in the 1970s. Moving Image Review & Art Journal, v. 1, n. 1, p. 59-67, 2012.
FRANÇA, Ana Claudia C. V.; CORRÊA, Ronaldo de Oliveira. Sonia Andrade e Letícia Parente, duas videoartistas brasileiras em uma exposição de arte feminista de vanguarda dos anos 1970. Modos: Revista de História da Arte, Campinas, v. 4, n. 2, p. 301-315, maio 2022.
MOURÃO DE ANDRADE, Patrícia. A Very Rich Technical Precarity. In: CONDE, Maite; FURTADO, Gustavo Procopio (org.). The Oxford Handbook of Brazilian Cinema. New York: Oxford University Press, 2026. p. 447-462. 
RAMOS, Paula Nogueira. Casa-criação: problemas espaciais na obra de artistas brasileiras da década de 1970. Arte & Ensaios, Rio de Janeiro, v. 28, n. 44, p. 137-164, jul.-dez. 2022.

Teses
SNEED, Gillian. Gendered Subjectivity and Resistance: Brazilian Women’s Performance-for-Camera, 1973–1982. 2019. Tese (Doutorado em História da Arte) — The City University of New York, Nova York, 2019.

COLEÇÕES INSTITUCIONAIS INTERNACIONAIS

As obras de arte de Sônia Andrade estão presentes nas coleções públicas de importantes instituições, como
Centre Pompidou , Getty Research Institute , Harvard Art Museums